Fisiculturistas influencers: os jovens com milhares de fãs que vendem dicas para ‘evoluir o shape’
A ascensão de jovens fisiculturistas como celebridades nas redes sociais tem levantado debates sobre a monetização de dicas de treinos e dietas, muitas vezes sem a devida formação na área. Um exemplo trágico foi o do fisiculturista Gabriel Ganley, que faleceu aos 22 anos, acumulando mais de 2,3 milhões de seguidores no Instagram. Sua morte súbita foi atribuída à cardiomiopatia hipertrófica, uma condição cardíaca que pode ser agravada pelo uso de anabolizantes.
Ganley falava abertamente sobre o uso de hormônios e insulina, ciente dos riscos. Sua trajetória demonstra o poder do conteúdo online, a interação com outros famosos e a criação de uma base de fãs engajada, características de uma verdadeira celebridade. O Brasil se consolidou como o segundo maior mercado de fisiculturismo do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, impulsionando um número crescente de influenciadores.
Esses jovens, muitos na casa dos 20 anos, exibem treinos intensos e dietas rigorosas, prometendo o alcance do “shape perfeito”. Patrocinados por marcas de suplementos, eles monetizam seus conteúdos com dicas que, em muitos casos, não são embasadas por conhecimento técnico ou formação específica. Conforme informação divulgada na fonte, o “close friends” se tornou uma prática comum entre esses influenciadores para oferecer conteúdo exclusivo mediante pagamento.
O mercado de influenciadores fitness e a busca pelo “shape ideal”
O fisiculturismo, sempre popular, ganhou uma nova dimensão com a internet, transformando-se em entretenimento e conteúdo diário. Gabriel Ganley exemplifica esse fenômeno, tendo ganhado fama inclusive como “atleta natural” antes de usar anabolizantes. Sua interação com outras personalidades do meio, como Leo Stronda, em programas com alto número de visualizações, contribuiu para sua popularidade e para a monetização de seu conteúdo através de publicidade.
Outros jovens influenciadores seguem o mesmo caminho. Dudu Fit, com cerca de 390 mil seguidores, cobra R$ 75 trimestrais pelo acesso ao seu “close friends”, onde promete compartilhar sua “vida de atleta” e responder a perguntas. Matheus Lacerda, conhecido como Mahhtla, de 19 anos e com cerca de 184 mil seguidores, também vende acesso ao seu “close friends” por R$ 37,90 trimestrais, compartilhando dicas sobre o uso de anabolizantes e os resultados da testosterona.
A influência horizontal e a identificação com o público jovem
Segundo a psicanalista Cínthia Demaria, a atração que esses influenciadores exercem sobre jovens de idade similar se deve à identificação e à percepção de um ideal “possível”. A figura do “super-herói” masculino é particularmente forte na adolescência, um período de busca por identidade. Esses influenciadores oferecem um modelo de como ser “esse homem”.
Enquanto profissionais de educação física e médicos também compartilham conteúdo sobre treinos, a linguagem e a proximidade com a idade dos influenciadores tornam o acompanhamento mais atraente para os jovens. Essa relação “horizontal”, de semelhança, cria uma ilusão de acessibilidade e a promessa de resultados rápidos e atingir um ideal desejado, como explica Cinthia.
A psicóloga reforça que essa dinâmica vai além da inspiração. Muitos jovens consumidores de conteúdo acabam replicando esse modelo, produzindo seus próprios conteúdos e fomentando o mercado. A relevância nas redes sociais se torna um objetivo, incentivando a absorção e adaptação de práticas de terceiros para gerar o próprio conteúdo, impulsionado pelo desejo de ser visto.
A responsabilidade profissional e a venda de “ilusões”
Para jovens na casa dos 20 anos, compartilhar a rotina nas redes sociais é natural. No entanto, ao vender dicas e promover um estilo de vida específico, esses fisiculturistas assumem um papel de especialistas sem possuir a qualificação necessária. Conforme Felipe Goulart, do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF), apenas profissionais de educação física são habilitados para prescrever treinos, e a venda de treinos na internet por não profissionais constitui contravenção penal, de acordo com a Lei 9696.
Felipe Goulart afirma que esses influenciadores vendem “uma ilusão” ao prometer o caminho para o “shape ideal”. Ele ressalta que a rotina desses atletas é extremamente dedicada, envolvendo horas de treino, sono regulado e dietas controladas, algo distante da realidade da maioria dos seguidores que adquirem seus protocolos na esperança de resultados semelhantes.
Mesmo entre aqueles que não “vendem” dicas diretamente, a linha entre compartilhar o estilo de vida e influenciar negativamente é tênue. Postagens sobre o uso de anabolizantes, por exemplo, podem moldar a percepção dos seguidores sobre o tema. O próprio termo “influenciador” indica a capacidade de afetar outros, e muitos se protegem alegando apenas compartilhar suas experiências pessoais, o que pode levar os seguidores a replicar essas práticas sem a devida cautela.





