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Forças de Paz da ONU Encolhem Pela Metade em 10 Anos: Crise de Financiamento e Mudança no Cenário Global

Forças de Paz da ONU Encolhem Pela Metade em 10 Anos: Crise de Financiamento e Mudança no Cenário Global

O número de militares envolvidos em missões de paz lideradas pela ONU e outras organizações internacionais sofreu uma redução drástica, caindo pela metade em uma década. Um novo estudo do Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo (Sipri) aponta que essa diminuição se intensificou, com uma queda de 17% apenas entre 2024 e 2025. Essa retração reflete uma crise no modelo de manejo de conflitos armados que tem sido prevalente no século XXI, intensificada por dificuldades de financiamento e uma mudança no panorama geopolítico.

As perspectivas para a gestão multilateral de conflitos não são promissoras, conforme alertam os autores do estudo, Claudia Pfeifer Cruz e Jaïr van der Lijn. Os números apresentados são um reflexo claro dessa preocupação. Em 2016, considerado o auge do modelo, 152.803 militares estavam engajados em 61 missões de paz. Deste total, 22 eram lideradas diretamente pela ONU, com os famosos capacetes azuis, e outras 42.800 pessoas serviam em operações comandadas por entidades multilaterais ou países envolvidos nas crises.

Uma década depois, a realidade é outra. Atualmente, são 78.633 militares atuando em 58 operações, sendo que 18 delas ainda são chefiadas pelas Nações Unidas. Ao todo, 34 países são palco dessas missões. Essa redução expressiva no efetivo e no número de operações sinaliza um enfraquecimento significativo das iniciativas de paz globais. Conforme informação divulgada pelo Sipri, essa queda é um indicativo de que o modelo de manejo de conflitos armados está em crise.

A Escassez de Recursos Financeiros e o Corte nos Orçamentos

Um dos principais fatores que explicam essa retração é a escassez de financiamento. Os recursos destinados pela ONU para missões de paz, após correção monetária, caíram pela metade, passando de US$ 11 bilhões em 2016 para US$ 5,5 bilhões previstos para 2025. Essa diminuição é ainda mais preocupante quando se considera que esses valores representam apenas o que é autorizado para ser bancado pelos 193 membros plenos da ONU.

A decisão do ex-presidente americano Donald Trump, em seu segundo mandato, de cortar financiamentos à ONU, por considerá-la um item obsoleto do pós-guerra, teve um impacto considerável. Os Estados Unidos eram o maior contribuinte financeiro da organização, e sua saída gerou um déficit significativo. Segundo a própria ONU, faltam cerca de US$ 2 bilhões para fechar o orçamento de 2025 das operações de paz.

Impacto dos Cortes e a Mudança nas Estratégias de Paz

Esse rombo financeiro forçou cortes lineares de 15% nas operações, resultando em uma queda de 25% no pessoal militar alocado pela ONU, o que, por sua vez, puxou o declínio geral. O cenário reflete também uma mudança na forma como o mundo lida com conflitos, priorizando ações mais focadas em detrimento de grandes operações politicamente complexas. Atualmente, 4 das 10 maiores missões de paz não são lideradas pela ONU, como é o caso da terceira maior operação, na Somália, onde a União Africana emprega quase 12 mil soldados e policiais.

A Europa e a Ascensão de Novos Atores em Missões de Paz

A região subsaariana da África continua sendo o principal foco das missões de paz, com 18 operações em andamento. No entanto, em 2025, a Europa também entrou no radar, em decorrência da crescente turbulência na região. Para os autores do estudo, o enfraquecimento do multilateralismo pode levar a um aumento de conflitos, enquanto a menor adesão a arcabouços normativos pode resultar em confrontos mais severos.

Críticos da burocracia da ONU apontam que as missões, com suas diversas limitações, não conseguem mais dar conta da realidade geopolítica. Dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, indicam que os 36 conflitos ativos no planeta no ano passado registraram níveis de violência e mortalidade sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. A omissão crescente das grandes potências abre espaço para países de médio porte atuarem no campo, com o estudo citando nominalmente o Brasil e a Turquia.

O Papel do Brasil nas Missões de Paz e o Esvaziamento do Modelo

O caso brasileiro, embora não seja objeto direto do estudo do Sipri, também reflete o esvaziamento do modelo de missões de paz. O país tem um histórico de participação em operações desde 1948, com destaque para a missão no Haiti, que durou de 2004 a 2017, por onde passaram mais de 36 mil militares brasileiros. Contudo, a participação brasileira diminuiu significativamente.

Por escassez de navios, o Brasil deixou em 2020 o comando do dispositivo marítimo da Unifil, no Líbano. Atualmente, o Ministério da Defesa informa que cerca de 70 militares e policiais brasileiros estão envolvidos em nove missões, a maioria na África. O país ainda mantém o comando da força militar na Monusco, na República Democrática do Congo. Embora programas de capacitação de tropas continuem, não há previsão de novos grandes engajamentos.

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