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Guerra ao Terror: Entenda como o 11 de Setembro Legou um Estado de Exceção Permanente e o Legado Sombrio da Rotulação de ‘Terrorista’

O legado duradouro do 11 de Setembro: poder ampliado e a normalização da exceção

Quase duas décadas e meia se passaram desde os trágicos atentados de 11 de Setembro, um evento que não apenas ceifou quase 3.000 vidas, mas também redefiniu a segurança global e os direitos civis. Para muitos familiares, como Terry Rockefeller, que perdeu a irmã Laura naquele dia, as respostas sobre quem planejou e financiou os ataques, e por que o sistema falhou em impedi-los, permanecem evasivas.

Enquanto as perguntas persistem, o aparato de segurança erguido após o 11 de Setembro segue ativo, com poderes presidenciais ampliados para autorizar ações contra organizações consideradas terroristas pela Casa Branca. Especialistas apontam que esses instrumentos legais e políticos, criados em um período de urgência, continuam a ser utilizados para justificar novas operações militares e medidas extraordinárias de segurança nacional, inclusive sob governos posteriores.

Essa permanência do estado de exceção é uma das ironias mais profundas do legado do 11 de Setembro, conforme aponta Rockefeller. Ela, que se juntou ao grupo Peaceful Tomorrows em busca de respostas e de uma abordagem não violenta, lamenta que o medo e a tragédia não alterem os valores fundamentais. A falta de responsabilização pelos abusos cometidos durante a chamada Guerra ao Terror, e a dificuldade em obter respostas concretas sobre o planejamento e financiamento dos ataques, são pontos centrais de sua crítica, conforme divulgado pela Folha.

A Busca por Respostas e a Falha na Responsabilização

Terry Rockefeller, que acompanhou de perto os processos contra os acusados de planejar os atentados, incluindo viagens a Guantánamo, expressa frustração com a condução dos julgamentos militares. As discussões sobre Guantánamo, tortura pela CIA e impasses judiciais dominaram os processos, ofuscando questões cruciais sobre o planejamento, financiamento e motivações dos ataques.

Para Rockefeller, a Comissão do 11 de Setembro, embora uma conquista para as famílias, não ofereceu as respostas consideradas centrais. A ausência de justiça e responsabilização para o crime mais hediondo em solo americano é um ponto de profunda insatisfação. Lawrence Husick, pesquisador do Foreign Policy Research Institute, concorda que a comissão foi eficaz em reconstruir os eventos e identificar falhas, mas falhou em aprofundar os objetivos estratégicos de longo prazo da Al Qaeda, limitando sua utilidade para orientar políticas de segurança futuras.

Guantánamo e o Legado Institucional da Guerra ao Terror

Os cinco homens acusados de organizar os atentados, incluindo Khalid Sheikh Mohammed, permanecem detidos em Guantánamo. Os processos são marcados por disputas jurídicas, com provas comprometidas por programas de tortura da CIA e confissões inadmissíveis. Mais de duas décadas depois, não há perspectiva clara de julgamento definitivo.

Yumna Rizvi, analista de políticas públicas do Center for Victims of Torture, argumenta que o principal legado da Guerra ao Terror não foi apenas militar, mas institucional. A ausência de prestação de contas significativa sobre a arquitetura legal e política criada após o 11 de Setembro permitiu que mecanismos de combate ao terrorismo sobrevivessem muito além das guerras no Afeganistão e Iraque.

A Ampliação do Uso da Categoria ‘Terrorista’ e seus Riscos

Rizvi destaca que democratas e republicanos permitiram a perpetuação desses mecanismos. Guantánamo continua aberta, ataques com drones foram ampliados, e o Congresso cedeu espaço ao Executivo em questões de segurança nacional. Um dos efeitos preocupantes é a expansão do uso da categoria ‘terrorista’ para enquadrar grupos sem relação direta com os ataques de 2001.

A falta de uma definição universalmente aceita de terrorismo abre espaço para que governos justifiquem medidas excepcionais. O termo ‘narcoterrorista’, por exemplo, foi usado para justificar ataques americanos no Caribe e a invasão da Venezuela. Essa capacidade de rotular pessoas, como aponta Rockefeller, é assustadora, especialmente quando governos como os EUA classificam facções brasileiras como PCC e CV como terroristas, apesar das preocupações do governo Lula com riscos de intervenções militares.

Olhar para Trás para Seguir em Frente: A Necessidade de Responsabilização

Rockefeller critica a decisão do governo Barack Obama de não promover uma ampla responsabilização pelos abusos cometidos durante a Guerra ao Terror, com a justificativa de ‘olhar para frente’. Ela discorda veementemente, argumentando que o aprendizado e o fortalecimento das sociedades dependem do reconhecimento dos erros cometidos no passado. Sem essa retrospectiva, o risco é repetir os mesmos equívocos, perpetuando um legado de exceção e injustiça.

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