A Batalha Virtual: Como Memes Se Tornaram Ferramentas de Guerra na Era Digital
A propaganda de guerra, que antes se limitava a panfletos e transmissões de rádio, ganhou novas e poderosas ferramentas na era digital. A disseminação rápida e viral de memes em plataformas como o X (antigo Twitter) e TikTok transformou o humor em uma arma estratégica, tanto para ridicularizar o inimigo quanto para galvanizar o apoio de suas próprias bases.
Essa prática, embora amplificada pelas redes sociais, tem raízes históricas profundas. Especialistas apontam que o uso de canções e piadas para diminuir o adversário remonta a conflitos do passado, como a Segunda Guerra Mundial, onde o moral das tropas era tão crucial quanto a estratégia militar.
O professor Nick Cull, da Universidade do Sul da Califórnia, especializado em propaganda de guerra, compara a música britânica sobre os testículos de Hitler aos memes atuais. “Os memes cruéis são uma parte integral das nossas guerras”, afirma Cull. “Eles ajudam o público a imaginar que a pessoa com quem estão lutando é ridícula e que pode ser derrotada.” Conforme apurado pela Folha de S.Paulo, a diferença hoje é que essa tática se tornou uma estratégia estatal.
Memes: Uma Arma Antiga em Novo Formato
A ideia de usar o humor para desestabilizar o inimigo não é nova. Durante a Segunda Guerra Mundial, uma música popular entre as tropas britânicas zombava de Hitler, insinuando sua suposta falta de virilidade. A canção visava não apenas ridicularizar os nazistas, mas também reforçar a ideia de que sua alegada superioridade genética era falha.
Essa estratégia, segundo Nick Cull, tem sido uma constante em conflitos envolvendo potências ocidentais. “Não importa contra quem estivessem lutando, fosse Napoleão, o Kaiser ou Hitler, os britânicos sempre faziam musiquinhas sobre o inimigo”, explica o professor.
A grande virada ocorreu com a ascensão de figuras políticas que abraçaram as redes sociais como palco principal de comunicação. Donald Trump, por exemplo, utilizou suas contas e as da Casa Branca para disseminar imagens e vídeos, muitos criados com inteligência artificial, sobre questões geopolíticas e conflitos de seu interesse.
Trump e a “Guerra Memética”: O Início de uma Nova Era
Tine Munk, professora de criminologia da Universidade Nottingham Trent, que estuda a “guerra memética”, aponta Donald Trump como um divisor de águas nessa estratégia. “Em 2016, na eleição presidencial dos EUA, foi quando vimos Trump e seus apoiadores começarem a usar memes como ferramentas políticas mais explícitas e ofensivas”, afirma.
Um dos exemplos mais notórios foi a publicação de uma imagem de Trump com vestes similares às de Jesus, curando um homem doente. Essa postagem ocorreu em meio a atritos entre o ex-presidente e o Papa Leão 14, e serviu como um marco para a incorporação de memes em narrativas políticas e de conflito.
A resposta iraniana a essa tática foi rápida e contundente. Logo após a imagem de Trump como Jesus ser divulgada, embaixadas iranianas começaram a distribuir suas próprias mensagens, demonstrando a capacidade de contra-atacar no mesmo terreno virtual.
O Irã Contra-Ataca: Criatividade e Ridicularização na Arena Digital
Em um vídeo viral publicado pela embaixada do Irã no Tadjiquistão, a imagem de Trump como Jesus foi respondida com uma cena onde o verdadeiro Jesus dá um soco no presidente americano, derrubando-o em um fosso de lava. A publicação alcançou mais de 12 milhões de impressões no X, evidenciando o poder de alcance dessas postagens.
O Irã tem apostado em uma linha de memes que buscam a ridicularização, utilizando elementos da cultura pop para desconstruir a imagem de seus adversários. Vídeos misturando Lego e “Toy Story” mostram Trump como um brinquedo de Netanyahu, enquanto outros, mais sombrios, o associam a figuras como Jeffrey Epstein.
A estratégia iraniana, segundo Nick Cull, divide a propaganda em três tipos: para o público interno, para países neutros e para o inimigo. “Parte do nosso próprio momento, da nossa própria época, é que nunca foi tão fácil fazer sua mensagem chegar ao inimigo”, diz o professor.
Estratégias Distintas: Apelo à Base vs. Desmoralização Global
Enquanto os Estados Unidos tendem a criar conteúdos que apelam à grandeza e masculinidade idealizada pela base de apoio de Trump, o Irã foca na ridicularização. A maioria dos memes iranianos é produzida em inglês, indicando um objetivo de “trollar” Trump para o público global, e não apenas para o doméstico.
Por outro lado, os EUA, ao criarem vídeos em inglês que celebram a “maneira americana de fazer guerra”, parecem mais voltados a reforçar a identidade e o orgulho de sua própria base. “Veja quantos dos memes estão sendo feitos em inglês. Isso sugere que os iranianos não estão tentando ganhar apoio interno, querem ‘trollar’ Trump para o resto do mundo”, observa Cull.
A efetividade exata dessa “guerra memética” é difícil de mensurar. “Não existe nada pior do que uma propaganda que não é feita para você”, comenta Cull, ressaltando que a mensagem de Trump pode soar estranha para quem não faz parte de sua base eleitoral. Já os memes iranianos, ao adotarem um tom mais universal e de “azarão”, podem gerar maior engajamento.
A “guerra memética” continua ativa, mesmo com um cessar-fogo militar frágil. Para Nick Cull, a simples persistência e presença online do Irã já contradiz a narrativa de “obliteração” propagada por Trump, demonstrando a resiliência e a capacidade de adaptação na batalha pela percepção pública.





