Irã vive o mais longo apagão de internet da história em país conectado, com repressão crescente a dissidentes
O Irã atingiu a marca de 83 dias de bloqueio total à internet, tornando-se o país com a mais longa censura digital já registrada, segundo a organização NetBlocks. A medida, intensificada após ataques de Israel e Estados Unidos em 28 de fevereiro, restringe o acesso a sites estrangeiros e ferramentas de comunicação globais, aprofundando o isolamento do país.
Essa não é a primeira vez que o acesso à rede é restringido. Em janeiro, durante protestos contra o governo que resultaram em milhares de mortos, a internet já havia ficado bloqueada por 20 dias. O governo iraniano justifica a censura como uma medida de segurança nacional, alegando que forças estrangeiras utilizam a internet para rastrear líderes militares e incitar tentativas de golpe.
As consequências desse bloqueio se estendem para além da comunicação, afetando a economia e a vida cotidiana dos iranianos. Pequenos empresários, profissionais liberais e jovens estudantes relatam perdas significativas e dificuldades em manter suas atividades. A falta de acesso à informação e às redes sociais globais, somada ao aumento do custo de ferramentas para contornar a censura, como as VPNs, agrava a situação, conforme divulgado pela Folha.
O alto custo da liberdade digital: VPNs inacessíveis para a maioria
Antes acessíveis, as VPNs (Redes Privadas Virtuais), que permitem burlar restrições governamentais, tornaram-se um luxo no Irã. O preço de serviços confiáveis disparou, custando entre US$ 5 e US$ 10 mensais. Para muitos iranianos, cujo salário mínimo gira em torno de US$ 70, esse valor é proibitivo, deixando grande parte da população sem acesso à internet global e confinada à rede nacional controlada pelo governo.
Internet por classes: acesso privilegiado para poucos
O governo iraniano lançou um serviço especial para empresários autorizados, o que gerou críticas e foi apelidado de “internet por classes”. O programa “Internet Pro” oferece acesso especial, mas seu alto custo e o rigoroso processo de triagem o tornam inacessível para a maioria. Há relatos de um mercado paralelo para a venda desse acesso privilegiado, com preços ainda mais elevados.
Além disso, políticos, veículos de imprensa selecionados, diplomatas e indivíduos com fortes conexões governamentais têm acesso irrestrito através de “SIM cards brancos”. O governo também confisca e prevê prisão para quem utiliza o serviço Starlink, de Elon Musk, sem autorização.
Repressão se intensifica: prisões, execuções e confisco de bens
O controle da internet é apenas uma faceta da crescente repressão no Irã. Desde o início da guerra, o governo tem aumentado o número de prisões e execuções de dissidentes. O alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, informou que ao menos 21 pessoas foram executadas e mais de 4.000 presas por acusações ligadas à segurança nacional desde o final de fevereiro. O comandante geral da polícia iraniana, general Ahmad-Reza, anunciou a prisão de 6.500 “espiões e traidores”, muitos ligados aos protestos de janeiro.
O confisco de bens de indivíduos considerados ameaças à segurança do Estado também é uma prática recorrente. O secretário de Justiça da província do Azerbaijão Ocidental, Nasser Atabati, anunciou o confisco de bens de 129 pessoas acusadas de cooperar com países hostis. A “mídia hostil e elementos ligados ao inimigo poderoso” enfrentarão ações decisivas, declarou.
Entre os detidos está o jornalista japonês Shinnosuke Kawashima, que, após cobrir protestos de oposição, foi preso e levado para a prisão de Evin. Solto sob fiança em abril, ele aguarda julgamento em prisão domiciliar. Recentemente, a Justiça iraniana anunciou a execução de dois homens acusados de integrar grupos terroristas separatistas envolvidos em ataques contra forças de segurança.





