Juçara Marçal e Thais Nicodemo Criam Obras de Arte Sonora em “Dessemelhantes”
A cantora Juçara Marçal, que se destacou há 12 anos com o impactante álbum “Encarnado” (2014), consolida sua posição na vanguarda da música brasileira com o lançamento de “Dessemelhantes”. Desta vez, ela une forças com a pianista Thais Nicodemo em um trabalho que promete **desnortear e inovar**, oferecendo uma nova perspectiva sobre a música.
O álbum, disponível desde 7 de maio pela gravadora YB Music, é fruto de um show apresentado pelas artistas em São Paulo e explora um universo musical coeso, mas repleto de **invenções e experimentações**. “Dessemelhantes” se apresenta como um convite à audição atenta, com nove faixas que fogem do convencional e celebram a **ousadia sonora**.
A proposta do álbum é clara: desconstruir e reconstruir estruturas musicais, apresentando um repertório sem hits óbvios, mas com uma riqueza que cativa pela **originalidade**. A dupla, Juçara Marçal e Thais Nicodemo, produziram o trabalho, que conta com arte de capa de Gina Dinucci, e o posicionam como um marco na discografia brasileira do século XXI, conforme informação divulgada pela fonte.
Piano Preparado e Vozes Experimentais: A Essência de “Dessemelhantes”
Thais Nicodemo eleva o piano a um novo patamar em “Dessemelhantes”, utilizando a técnica de **piano preparado**. Objetos como latinhas, papéis e pregadores são inseridos entre as cordas do instrumento, criando timbres e texturas sonoras **inéditas e surpreendentes**. Essa abordagem confere ao álbum uma atmosfera de vanguarda desde a primeira faixa, “Isso é o que se diz, irmão” (Guilherme Held e Eduardo Climachauska, 2020).
Juçara Marçal, por sua vez, não se limita ao canto. Ela comanda um sampler e um synth bass, adicionando camadas eletrônicas e **ritmos pulsantes** que dialogam intensamente com o piano preparado de Nicodemo. Essa combinação resulta em arranjos complexos e empolgantes, que transformam composições conhecidas em algo completamente novo.
Um exemplo dessa reinvenção é a música “Maria” (Maria Beraldo, 2018), onde a cantora reconta uma saga autobiográfica com toques eruditos e vanguardistas, mesclando vocais e **efeitos sonoros impactantes**. A presença de Maria Beraldo no repertório, ao lado de Negro Leo, com quem abordam “Eu lacrei”, sublinha a conexão do álbum com artistas que seguem a linha de **experimentação sonora** iniciada por nomes como Arrigo Barnabé.
Um Diálogo com a História da Música de Vanguarda
A escolha de compositores como Maria Beraldo e Negro Leo não é por acaso. Ambos transitam em um espaço de invenção sonora que remonta a décadas passadas, ecoando o **desvario criativo** da São Paulo dos anos 1980, popularizado por artistas como Arrigo Barnabé. “Dessemelhantes” se insere nesse contexto como um trabalho que dialoga com a **história da música de vanguarda** brasileira.
A música-título, “Dessemelhantes”, composta por Juçara Marçal em parceria com Thiago França, é um exemplo da **ousadia lírica e musical** do álbum. Embora possa soar desafiador para alguns ouvidos, o disco também apresenta momentos de **delicadeza surpreendente**, como em “Cavaquinho” (Rodrigo Campos, 2009), onde o piano de Nicodemo evoca a sonoridade de uma caixinha de música.
Tensões, Ruídos e a Ironia Mordaz de “Dessemelhantes”
O álbum é marcado por **tensões sonoras**, ruídos percussivos, efeitos eletrônicos e dissonâncias, que guiam as abordagens de músicas como “Eu não duro” (Romulo Fróes e Eduardo Climachauska, 2019) e “Merecedores” (Kauê Batista, 2022). A interpretação de Juçara Marçal em “É mesmo assim” (Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes, 2011), com o verso “Vai querer, querer, querer, querer / Zombar de mim”, parece um **desafio direto ao ouvinte**, convidando-o a ir além do familiar.
A ironia mordaz e resignada de “A gente se fode bem pra caramba” (Kiko Dinucci, 2017) encerra o álbum, reforçando o caráter **desafiador e transgressor** de “Dessemelhantes”. Em um mercado que muitas vezes privilegia o fácil e o repetitivo, este trabalho se destaca por sua **coragem artística** e pela proposta de apontar novos caminhos na música brasileira.




