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Mar de Guerra: Marinheiros Presos no Estreito de Hormuz Há Quase 100 Dias Relatam Medo e Preços Abusivos

Marinheiros Relatam Pesadelo no Estreito de Hormuz, Onde o Medo e a Escassez Dominam a Rotina em Meio à Guerra

O mar, que para muitos representa tranquilidade, tornou-se um cenário de pesadelo para milhares de marinheiros. Presos no Estreito de Hormuz e arredores desde o final de fevereiro, cerca de 20 mil tripulantes vivem sob a constante ameaça de mísseis e minas, em uma zona de guerra que antes era uma das artérias mais importantes do comércio global.

O que antes era um fluxo constante de navios, transportando um quinto do petróleo e gás mundial, agora se encontra em um impasse tenso. O Irã, em meio ao conflito com os Estados Unidos e Israel, fechou a passagem estratégica, transformando-a em uma “lagoa” sem saída, onde a incerteza e o estresse se tornaram companheiros diários dos navegantes.

A BBC News Brasil conversou com alguns desses marinheiros, que compartilharam a angústia de estarem à deriva, longe de casa, com suprimentos cada vez mais caros e a esperança de uma solução diplomática diminuindo a cada dia. A situação, que já dura quase 100 dias, expõe a fragilidade das rotas marítimas e o alto custo humano dos conflitos geopolíticos.

A “Lagoa” de Hormuz: Bloqueio e Medo Constante

O capitão Hassan Khan (nome fictício) descreve a estranha calma aparente do lado de fora de seu navio, contrastando com a apreensão interna de sua tripulação. “É estranho ver tudo aparentemente normal do lado de fora quando ninguém aqui dentro consegue ficar tranquilo”, relata o marinheiro paquistanês. Ele e outros 20 mil navegantes estão retidos desde 28 de fevereiro, quando o conflito se intensificou.

O Estreito de Hormuz, a única saída do Golfo Pérsico, tornou-se um ponto de bloqueio. O Irã passou a impedir travessias sem autorização, transformando a rota em um “beco sem saída”. “É como se estivéssemos presos em uma lagoa. Só existe uma saída, e ela é Hormuz”, explica o capitão Shafiqul Islam, cujo navio transporta fertilizantes para a África do Sul.

Islam já tentou duas vezes deixar a região sem sucesso. Após um anúncio de cessar-fogo em abril, ele acreditou que seria possível atravessar, mas ordens de “não seguir viagem” foram dadas. Uma nova tentativa, após o Irã afirmar que o estreito estaria “completamente aberto”, também falhou quando os EUA mantiveram o bloqueio aos portos iranianos. O navio de Islam estava a menos de 55 km do estreito, mas teve que mudar de rota diante dos alertas de ataques.

Suprimentos em Alta: Água e Comida Viram Luxo Caro

Com os navios parados, o abastecimento de comida e água tornou-se uma preocupação urgente. Embora a região do Golfo possua serviços de suprimento bem estruturados, as entregas se tornaram imprevisíveis e com preços exorbitantes. O engenheiro-chefe do navio Banglar Joyjatra, Rashedul Hasan, relata um aumento drástico no custo da água.

“Compramos cerca de 180 toneladas de água para o navio há dois dias. Antes, isso custava entre US$ 1.500 e US$ 2.000. Agora, estamos pagando US$ 11 mil”, afirma Hasan. A alta temperatura, que já ultrapassou os 30°C em maio e pode chegar a 45°C no verão, agrava a necessidade de água potável.

Um marinheiro sul-coreano, que preferiu não se identificar, também aponta para a tentativa de “lucrar excessivamente” por parte de alguns fornecedores. No navio de Khan, a tripulação “ainda tem comida e água, mas as coisas agora são mais simples”, com escassez de verduras e lentilhas, embora carne bovina e frango ainda sejam conseguidos.

Vidas em Risco: Ataques, Mortes e o Futuro Incerto da Navegação

A tensão no Estreito de Hormuz não é apenas econômica, mas de vida ou morte. Islam e sua tripulação testemunharam ataques, com mísseis passando sobre um navio e destroços caindo em outro. “Sempre que os ataques continuavam durante a noite, ninguém conseguia dormir”, diz Hasan. O medo é justificado: pelo menos 11 marinheiros morreram e outro continua desaparecido em 39 incidentes confirmados, segundo a Organização Marítima Internacional (OMI).

Mesmo com um cessar-fogo, a situação permanece frágil, com avistamentos de drones, caças militares, navios de guerra e submarinos. Sajid Masood, cozinheiro em um petroleiro, relata que “os iranianos fazem isso para impedir qualquer travessia”.

A crise também afeta a indústria de navegação. Empresas que antes ofereciam salários mais altos para manter tripulações agora enfrentam prejuízos e informam que quem quiser deixar o trabalho poderá fazê-lo, com redução de salários e benefícios. O futuro da profissão é incerto, com muitos marinheiros reavaliando suas carreiras diante do perigo. “Muitos marinheiros podem passar a enxergar essa profissão de outra forma”, teme Kamil, um marinheiro paquistanês.

Diplomacia e Pagamentos: A Difícil Busca por Saída

Alguns navios, cerca de 750 desde 28 de fevereiro, conseguiram atravessar o Estreito de Hormuz, possivelmente através de negociações diplomáticas diretas com o Irã ou mediante o pagamento de “alguns milhões de dólares por navio”, segundo Jonathan Schroden, da CNA. A maioria dessas embarcações vinha da China, Índia e Paquistão.

Para o navio Banglar Joyjatra, a diplomacia é a principal esperança. O governo de Bangladesh, em conjunto com a Bangladesh Shipping Corporation (BSC), tentou negociar a saída da embarcação. Inicialmente, Bangladesh concordou em pagar a taxa exigida pelo Irã, mas o plano foi abortado após os EUA ameaçarem impor sanções a qualquer país que fizesse o pagamento. “Estamos vivendo uma crise dupla agora”, afirma o diretor-geral da BSC, o comodoro Mahmudul Malek.

Enquanto a diplomacia se arrasta e os conflitos persistem, milhares de marinheiros continuam presos, longe de suas famílias, com o futuro incerto e a esperança de voltar para casa diminuindo a cada dia. A situação no Estreito de Hormuz é um lembrete sombrio do impacto devastador que as tensões geopolíticas podem ter na vida de pessoas comuns.

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