Médicos Sem Fronteiras denuncia uso de drones russos para atacar socorristas na Ucrânia
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou um relatório alarmante nesta segunda-feira (13), acusando as forças da Rússia de empregarem drones em ataques deliberados contra profissionais de saúde e socorristas na Ucrânia. A prática, descrita como uma tática de “duplo ataque”, visa civis e, em seguida, as equipes de emergência que acorrem para prestar socorro.
Essa estratégia transforma o ato de salvar vidas em um “risco letal”, forçando equipes médicas a ponderar entre a urgência de ajudar os feridos e a iminência de um novo ataque. O documento, intitulado “No Safe Place to Heal” (“Não Há Lugar Seguro para Se Curar”), detalha como essa abordagem tem impactado o trabalho humanitário e a segurança de quem atua na linha de frente.
Conforme o relatório da MSF, o uso de drones FPV (visão em primeira pessoa), conhecidos por sua precisão, tem sido associado a ataques diretos contra alvos médicos identificados. As informações foram compiladas a partir de relatos de profissionais e dados coletados em campo desde o início da invasão em larga escala. A MSF pede o fim desses ataques e investigações independentes.
Tática “Duplo Ataque” Aumenta o Risco para Socorristas
O “duplo ataque” consiste em uma primeira ofensiva contra civis ou combatentes, seguida por um segundo ataque direcionado às equipes de emergência que chegam ao local. Essa tática cruel, denunciada pela MSF, tem como objetivo maximizar o número de vítimas e desestimular a prestação de socorro. O ato de salvar vidas se torna, assim, uma armadilha mortal.
Um episódio citado pela MSF ocorreu em 1º de fevereiro de 2026, próximo a Ternivka, no leste da Ucrânia. Um ônibus com civis foi atingido por dois ataques sucessivos, resultando em cerca de 12 mortos e 16 feridos levados ao hospital. Desses, nove foram classificados como “casos vermelhos”, uma proporção alarmantemente alta, indicando a gravidade dos ferimentos.
Essa prática transforma o ato de prestar socorro em um “risco letal”, obrigando as equipes médicas a uma decisão agonizante antes de se aproximarem de um local bombardeado. A MSF ressalta que a proteção de profissionais de saúde e civis, garantida pelas Convenções de Genebra, está sendo “sistematicamente ignorada”.
Drones FPV e Ataques Deliberados a Alvos Médicos
A organização também relaciona o uso de drones FPV a ataques deliberados contra alvos médicos identificados. Esses drones permitem que os operadores mirem com alta precisão em tempo real, aumentando a capacidade de atingir veículos e instalações de saúde claramente sinalizados.
Um caso documentado é o de Andrii Rebrov, diretor de um centro de atenção primária em Lyman, que perdeu uma perna após seu carro, “claramente identificado com uma cruz vermelha médica”, ser atingido por um drone em setembro de 2025. Sua enfermeira, Valentina Kolomatska, também ficou ferida.
Robin Meldrum, coordenador geral da MSF na Ucrânia, afirma que essa tendência tem sido observada há mais de quatro anos. Segundo ele, o que mudou não foi a falta de distinção entre alvos civis e militares, mas sim o **volume de ataques e as táticas empregadas**, com mais de 700 drones atacando o país em algumas noites, somados a mísseis.
Escalada de Ferimentos e Violações do Direito Internacional
A maior presença de drones em combate resultou em uma mudança no padrão dos ferimentos tratados pelas equipes médicas. As lesões são mais frequentes, pequenas e com bordas enegrecidas por queimadura, com fragmentos que penetram o corpo em direções variadas, dificultando a limpeza cirúrgica e aumentando o risco de infecção.
O número de pacientes com fraturas múltiplas cresceu 51% entre 2024 e 2025 em um projeto de reabilitação da MSF em Tcherkasi. O número de amputações múltiplas triplicou no mesmo período. “Dois anos atrás, víamos muitos ferimentos nos membros inferiores. Agora são braços, tronco e rosto”, afirma Meldrum.
A MSF considera que as proteções garantidas pelas Convenções de Genebra estão sendo “sistematicamente ignoradas”. Ataques deliberados contra profissionais de saúde são classificados como possível violação grave das convenções. Para Meldrum, o princípio da neutralidade médica foi apagado na prática, e o direito internacional humanitário “aparentemente não se aplica”.
Impacto nos Serviços de Saúde e Pedido de Responsabilização
O relatório da MSF se soma a outras iniciativas de responsabilização internacional da Rússia pela guerra. Em julho de 2025, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos já havia decidido que o país violou o direito internacional no conflito.
Segundo o sistema de monitoramento da OMS, citado no relatório, 233 profissionais de saúde e pacientes foram mortos e 930 feridos em ataques a instalações médicas e ambulâncias na Ucrânia desde o início da invasão. As ofensivas contra estruturas de saúde aumentaram de 370 em 2023 para 580 em 2025.
A MSF considera o uso de equipamentos de detecção de drones “uma necessidade” para ambulâncias perto da linha de frente, uma medida “profundamente perturbadora”. Instalações da própria ONG também foram atingidas, com um escritório em Pokrovsk destruído por um míssil em abril de 2024 e uma casa de funcionários danificada em dezembro de 2025.
A organização contabilizou mais de 20 ataques contra unidades de saúde apoiadas por ela entre abril de 2022 e dezembro de 2025. Oito hospitais precisaram ser esvaziados, quatro totalmente destruídos, e sete bases de ambulância abandonadas.
A escalada de ataques com drones acompanha uma intensificação do uso dessa arma na guerra. Em abril, a Rússia lançou um número recorde de 6.583 drones de longo alcance contra a Ucrânia. Kiev acusa Moscou de atacar também durante o dia para causar o maior número possível de vítimas civis.
A MSF pede que as forças russas cessem ataques contra civis, infraestrutura civil, profissionais e estruturas de saúde. A organização também solicita que os Estados-membros da ONU apoiem investigações independentes sobre essas violações e garantam o cumprimento integral da Resolução 2.286 do Conselho de Segurança da ONU, que reforça a proteção de pacientes e equipes médicas em conflitos armados.





