Morre Noca da Portela aos 93 anos, um gigante do samba e da luta por democracia
O mundo do samba está de luto com o falecimento de Noca da Portela, aos 93 anos, ocorrido neste domingo no Rio de Janeiro. O artista, cujo nome de batismo era Oswaldo Alves Pereira, lutava contra uma infecção urinária e não resistiu às complicações decorrentes de pneumonia, conforme informações divulgadas. Nascido em Leopoldina, Minas Gerais, Noca mudou-se para o Rio aos cinco anos e construiu uma carreira de mais de 500 composições, muitas delas marcadas por um forte engajamento social e político.
A notícia de sua partida enluta a música brasileira, que perde um de seus maiores cronistas e defensores. Noca da Portela não foi apenas um compositor prolífico, mas um bamba militante que utilizou sua arte para ecoar ideais de democracia e justiça social, deixando um legado imensurável para as futuras gerações do samba.
Sua obra atravessou décadas, embalando multidões e servindo de trilha sonora para momentos cruciais da história do Brasil. A partida de Noca da Portela, um artista de rara sensibilidade e forte caráter, deixa uma lacuna inestimável no coração de todos que amam o samba e seus valores.
Um Samba Engajado em Tempos de Redemocratização
Um dos exemplos mais marcantes da veia política de Noca da Portela é o samba “Virada”, composto em 1981 em parceria com Gilson Pereira, o Gilper. Naquele período, enquanto a ditadura brasileira dava sinais de enfraquecimento e os ventos da abertura política sopravam pelo país, a canção se tornou um hino pela redemocratização. O samba ganhou projeção nacional na voz de Beth Carvalho, uma cantora igualmente politizada, e se consolidou como um dos grandes sucessos da carreira de Noca.
Legado de Sucessos e Paixão pela Portela
A trajetória de Noca da Portela é pontuada por uma série de sambas que se tornaram clássicos. Além de “Virada”, outras composições como “É preciso muito amor” (1979), parceria com Tião de Miracema e gravada por nomes como Zeca Pagodinho e Dudu Nobre, e “Caciqueando” (1983), novamente imortalizada por Beth Carvalho, demonstram a genialidade do compositor. Sua profunda ligação com a Portela, a tradicional escola de samba azul e branca, foi eternizada em obras como “Portela querida” (1967), que se tornou um dos hinos informais da agremiação.
Noca foi um vencedor na disputa de samba-enredo da Portela, conquistando o título em sete ocasiões. A escola levou para a avenida sambas de sua autoria em carnavais memoráveis, como em 1985 com “Recordar é viver”, em 1995 com “Gosto que me enrosco” e em 1998 com “Os olhos da noite”, entre outros anos, reafirmando sua importância para o desfile.
Reconhecimento e a Voz de Outros Bambas
A qualidade de suas composições rendeu a Noca da Portela o reconhecimento de grandes nomes do samba. Artistas como Alcione, que gravou “Vendaval da vida” (parceria com Delcio Carvalho) em 1982, e Paulinho da Viola, intérprete de “Peregrino” (com Toninho Nascimento) em 1996, registraram em suas vozes a maestria de Noca. Ele também colaborou com Martinho da Vila em sambas como “Nem a lua” (1978) e o mais recente “Vidas negras importam” (2021), mostrando a relevância de seu trabalho ao longo do tempo.
Além de sua atuação como compositor, Noca da Portela também construiu uma discografia solo, com álbuns como “Mãos dadas” (1980), “Samba verdadeiro” (1998) e seu último trabalho, “Homenagens” (2016). Esses trabalhos são testemunhos de um artista que sempre usou o samba como ferramenta de expressão e defesa de seus ideais, um verdadeiro bamba militante.
A partida de Noca da Portela deixa um vazio, mas seu legado musical e seu exemplo de vida, pautado pela defesa da democracia e da justiça social, continuarão a inspirar e a ressoar por muitos e muitos anos.




