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O Assassinato de Roger Ackroyd: Por Que o Romance de Agatha Christie de 100 Anos é Considerado o Melhor Policial de Todos os Tempos?

Em 2013, a Associação Britânica de Escritores Policiais (CWA) reuniu-se para eleger o melhor romance do gênero de todos os tempos. Entre clássicos como “O Cão dos Baskervilles” e “O Silêncio dos Inocentes”, “O Assassinato de Roger Ackroyd”, de Agatha Christie, emergiu como o grande vencedor, conquistando os 600 votos computados.

Publicado originalmente como folhetim no jornal London Evening News entre julho e setembro de 1925, o livro chegou às livrarias brasileiras em 1933. Sua estrutura em 54 capítulos, com o título original “Quem Matou Ackroyd?”, introduziu um elemento que revolucionaria o gênero policial: o “plot twist”, uma reviravolta no final que chocou e encantou leitores, e que hoje é celebrado em diversas mídias.

Essa inovação narrativa, segundo especialistas, é um dos pilares do sucesso duradouro de “O Assassinato de Roger Ackroyd”. A obra não apenas consolidou Agatha Christie como a “Rainha do Crime”, mas também redefiniu as expectativas para o mistério e o suspense, inspirando incontáveis autores e obras posteriores.

A Inspiração por Trás da Genialidade

A própria Agatha Christie, em sua autobiografia, revelou que a inspiração para “O Assassinato de Roger Ackroyd” veio de sugestões de seu cunhado, James Watts, e de Lorde Louis Mountbatten. Watts, frustrado com a tendência de detetives se tornarem criminosos, expressou o desejo de ver um “Watson que virasse criminoso”. Mountbatten, por sua vez, sugeriu que a história fosse narrada em primeira pessoa por alguém que, no final, se revelasse o culpado.

Inicialmente, Christie pensou em seu fiel personagem Capitão Hastings para o papel, mas descartou a ideia, considerando-o incapaz de um crime frio e calculado. Assim, ela optou por dar a narrativa ao Dr. James Sheppard, o médico da pacata cidade de King’s Abbot, uma escolha que se provou magistral e enganosamente simples.

“Muitos dizem que “O Assassinato de Roger Ackroyd” é enganador. Mas, se o lerem com cuidado, verificarão que estão errados”, ponderou a autora, defendendo a integridade de sua construção narrativa. A capacidade de Christie de enganar o leitor de forma tão engenhosa é um dos aspectos mais admirados da obra.

Um Legado que Ultrapassa Gerações

Jared Cade, autor de “Secrets from the Agatha Christie Archives”, reitera que o livro é “sem dúvida, o melhor romance policial do século 20”. Ele destaca a “simplicidade enganosa” da trama, que se apresenta como um mistério convencional, mas desafia as regras do gênero, exigindo do leitor a suspeita sobre todos os personagens.

A escritora Susanne Lieder, biógrafa de Christie, complementa que a autora “revolucionou o gênero e surpreendeu os leitores”, especialmente pela escolha de um assassino “muito simpático”. Ela também expressa seu carinho pela personagem Caroline Sheppard, irmã do narrador, considerada sua favorita.

Apesar de “O Assassinato de Roger Ackroyd” ser aclamado pela crítica, é interessante notar que em uma enquete mundial promovida pelo site oficial de Agatha Christie em 2015, o livro favorito dos fãs foi “E Não Sobrou Nenhum” (1939). “O Assassinato no Expresso do Oriente” (1934) ficou em segundo lugar, e “O Assassinato de Roger Ackroyd” em terceiro, com 8% dos votos.

Adaptações e Reconhecimento Contínuo

O impacto de “O Assassinato de Roger Ackroyd” transcende a literatura, com inúmeras adaptações ao longo dos anos. A primeira foi uma peça de teatro em 1928, intitulada “Álibi”. Mais tarde, inspirou uma radionovela com Orson Welles em 1939, uma HQ ilustrada por Bruno Lachard em 2007 e um documentário em 2016.

O ator David Suchet, que interpretou Hercule Poirot em 70 episódios da série “Agatha Christie’s Poirot”, admitiu em seu livro “Viajando com Agatha Christie” que nunca havia lido a autora antes de ser convidado para o papel. “O Assassinato de Roger Ackroyd” foi um dos episódios adaptados para a aclamada série.

“O Assassinato de Roger Ackroyd” é frequentemente citado como o livro mais engenhoso de Agatha Christie, um que “quase impossível para o leitor desvendar o mistério final”, como aponta o escritor e tradutor Samir Machado de Machado. Sua releitura revela a maestria com que o assassino foi mascarado, provando que, cem anos depois, o mistério continua tão intrigante quanto em sua primeira publicação.

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