Ultradireita na América Latina: Líderes restringem acesso a autoridades e desafiam o jornalismo com retórica agressiva
A liberdade de imprensa na América Latina enfrenta desafios crescentes com a ascensão de governos de ultradireita. Em países como Argentina, El Salvador e Colômbia, jornalistas relatam restrições de acesso a autoridades, retórica hostil por parte dos líderes e, em alguns casos, o exílio forçado de comunicadores.
Essas ações minam o papel fundamental do jornalismo na fiscalização do poder e na informação da sociedade. A escalada de tensões entre governantes e a imprensa levanta sérias preocupações sobre o futuro da democracia na região.
O jornalista argentino Fabián Waldman, com sete anos de experiência cobrindo a Presidência, assegura que nenhum presidente na Argentina, nos 40 anos de democracia, gerou confronto com a imprensa nos termos que Javier Milei o faz. Conforme informação divulgada pela Folha, a Argentina caiu 69 posições no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa desde 2022, ocupando a posição 98 de 180 países.
Argentina: Milei intensifica ataques e restringe acesso à Casa Rosada
Na Argentina, o presidente Javier Milei tem intensificado seus ataques verbais à imprensa, chamando jornalistas de “merda humana mal cagada” e utilizando a sigla NOLSALP, que significa “não odiamos suficientemente os jornalistas”. A Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas (Adepa) registrou 335 mensagens contra a imprensa republicadas por Milei no X em uma semana, além de menções depreciativas em aparições públicas.
Além da retórica, o governo Milei implementou restrições práticas. Jornalistas não podem mais ver o presidente entrar ou sair da Casa Rosada, e a circulação no prédio foi limitada. “Desde 1940 até recentemente, jornalistas podiam ir a qualquer área comum da Casa Rosada”, afirma Waldman. O Fórum de Jornalismo Argentino (Fopea) confirma a dificuldade de acesso a informações oficiais e a restrições impostas aos profissionais credenciados.
Um episódio crítico foi a interdição da sala dos jornalistas na Casa Rosada por 11 dias, uma medida inédita que nem mesmo ditaduras anteriores aplicaram. A interdição ocorreu após a exibição de imagens internas do prédio por uma emissora de TV. O porta-voz presidencial Manuel Adorni declarou que o governo era a favor da liberdade de imprensa, mas não permitiria atos que colocassem em risco a segurança nacional.
El Salvador e Colômbia: Caminhos semelhantes de cerceamento
Em El Salvador, sob a presidência de Nayib Bukele, a situação é ainda mais grave. Um estado de exceção suspendeu direitos constitucionais, forçando pelo menos 40 jornalistas a deixarem o país. El Salvador caiu 74 posições no ranking de liberdade de imprensa desde 2019.
Na Colômbia, o presidente Abelardo de la Espriella, que como advogado abriu 109 denúncias criminais contra jornalistas entre 2018 e 2020, tem implementado medidas restritivas. Ministros e funcionários agora precisam de permissão para conceder entrevistas, o que levou ao cancelamento de uma coletiva de imprensa sobre inflação. A Fundação para Liberdade da Imprensa (FLIP) na Colômbia alerta que essa centralização de declarações visa controlar a mídia, exemplificado pela proibição de certos veículos em uma entrevista coletiva com Marco Rubio.
Padrão Regional e Influência Externa
Esses líderes de ultradireita, muitos aliados de Donald Trump, parecem seguir um padrão de controle da informação. A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) aponta que Trump, desde seu retorno ao poder em 2025, promove “interferência política na propriedade dos meios de comunicação e investigações com motivação política contra jornalistas e veículos”.
A dificuldade em exercer o jornalismo na América Latina é acentuada pela fragilidade econômica de muitos veículos locais, tornando-os mais suscetíveis a pressões. “Por aqui, o jornalismo se exerce com as unhas”, conclui Sofía Jaramillo, da FLIP Colômbia, contrastando com a resiliência de grandes veículos em países como os Estados Unidos.





