Varejo e setores essenciais sofrem com o avanço das apostas online no Brasil
O mercado de apostas online, conhecido como ‘bets’, tem apresentado um crescimento exponencial no Brasil, ultrapassando a esfera de um nicho e impactando significativamente o orçamento das famílias brasileiras. Essa nova dinâmica de consumo está alterando padrões de gastos em diversos setores, desde itens básicos como alimentação e vestuário até investimentos em educação.
O fenômeno tem gerado preocupação em diferentes ramos da economia, que buscam junto ao governo medidas para regulamentar e restringir a atuação dessas plataformas. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) já alertou que o consumo de carne tem diminuído, pois os consumidores estariam priorizando os gastos com apostas.
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam uma queda de 9% no consumo médio de carne por habitante em 2025. Segundo Roberto Perosa, presidente da Abiec, o problema não é o preço da carne, mas sim a renda disponível, que estaria sendo comprometida pelas apostas. Conforme estudo da Tendências Consultoria e Peers Consulting + Technology, mais de 25 milhões de brasileiros realizam apostas, movimentando entre R$ 20 e R$ 30 bilhões mensais.
Impacto Direto no Orçamento Familiar e no Consumo
O avanço das apostas online tem provocado uma reorganização estrutural no orçamento das famílias, especialmente nas classes C, D e E. Segundo o estudo conjunto da Tendências Consultoria e Peers Consulting + Technology, cerca de **23% dos apostadores deixaram de comprar itens de vestuário**, e **19% reduziram seus gastos em supermercados** para manter o hábito de apostar. Isso demonstra uma clara competição pelo dinheiro que antes era destinado a bens e serviços essenciais.
Apostas Competem com Investimentos e Educação
No setor financeiro, as ‘bets’ competem diretamente com a poupança e outras formas de investimento. Em 2024, aproximadamente **15% da população realizou ao menos uma aposta online**, um percentual superior ao de uso de diversos produtos financeiros tradicionais. No campo da educação superior, o crescimento das apostas online representa um novo obstáculo para o ingresso e a permanência de estudantes, principalmente entre as famílias de menor renda, que veem seus recursos para mensalidades serem desviados.
Propostas do Varejo para Conter o Avanço das Apostas
Diante desse cenário preocupante, a Associação Brasileira dos Atacarejos (Abaas) apresentou ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, uma série de propostas para mitigar o impacto das apostas no orçamento familiar. Entre as sugestões estão o **bloqueio mais rápido de sites ilegais**, a **restrição da publicidade digital** dessas plataformas, a **limitação de jogos de cassino** e o **controle de transações financeiras**, incluindo o bloqueio do Pix para apostas. A entidade também defende uma política de Estado a longo prazo, inspirada no combate ao tabagismo, tratando o vício em apostas como uma questão de saúde pública.
Mercado Ilegal e Endividamento Familiar: Riscos Crescentes
Apesar da regulamentação recente que autoriza apenas casas com o domínio bet.br a operar, o mercado ilegal de apostas online ainda representa um risco sistêmico significativo. Estima-se que plataformas não autorizadas respondam por cerca de **85% da receita bruta total**, gerando uma evasão fiscal superior a R$ 7 bilhões anualmente. Essa informalidade expõe os usuários a maiores vulnerabilidades, sem mecanismos de proteção ou monitoramento de riscos. Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e da FIA Business School aponta que as apostas já são o principal fator de endividamento familiar no Brasil, superando juros e crédito. A taxa de endividamento das famílias atingiu 49,9% neste ano, com a inadimplência em recordes históricos, conforme dados do Banco Central e da Confederação Nacional do Comércio (CNC).





