Paraguai entra na mira da China por alianças tecnológicas e diplomáticas com Taiwan
Um ato de desafia a China por parte do Paraguai, através de seu Ministro de Tecnologias da Informação e Comunicação, Gustavo Villate, desencadeou uma série de sanções por parte de Pequim. A polêmica teve início com uma saudação de Villate ao “Governo da República da China (Taiwan)” em uma rede social, um dia antes de ser alvo de medidas punitivas chinesas.
Villate foi incluído em uma lista de sanções que, até então, era reservada a políticos ocidentais e fabricantes de armas. As sanções impostas pela China incluem o bloqueio de hipotéticos bens do ministro no país, impedindo-o de realizar negócios com empresas chinesas e de visitar a China continental, Macau ou Hong Kong.
A porta-voz chinesa, Mao Ning, acusou Villate de “espalhar mentiras sobre hackers chineses”, em referência a um anúncio feito pelo ministério paraguaio em julho, em parceria com a embaixada americana, sobre a detecção de invasores ligados ao regime chinês nos sistemas do Paraguai. Conforme informação divulgada pelas fontes, a raiz da disputa, segundo o próprio Villate, reside no leilão de 5G do ano passado.
O Leilão de 5G e a Exclusão da Huawei
Na avaliação do ministro paraguaio, a decisão chinesa está diretamente ligada ao leilão de 5G realizado no ano anterior. Na ocasião, o regulador nacional exigiu que cada concorrente apresentasse um relatório da missão diplomática paraguaia no país de fabricação do equipamento. Sem embaixada em Pequim, essa regra acabou por excluir a Huawei e a ZTE do processo licitatório, sem mencioná-las explicitamente.
As duas maiores operadoras do Paraguai, Tigo e Personal, que utilizam equipamentos chineses, também foram indiretamente afetadas. As licenças para a exploração do 5G acabaram sendo concedidas à Claro, empresa do bilionário mexicano Carlos Slim, e à Nubicom. Essa movimentação estratégica do Paraguai busca reduzir a dependência tecnológica da China, alinhando-se a interesses ocidentais.
Histórico de Relações e a Nova Estratégia Tecnológica
Washington tem, há anos, pressionado a América Latina a limitar negócios com a Huawei, mas com sucesso limitado. O Paraguai, no entanto, conseguiu realizar essa proeza amparado por uma decisão de 1957, quando o ditador Alfredo Stroessner estabeleceu o anticomunismo como política de Estado, reconhecendo Taipé e cortando laços diplomáticos com a China. Essa decisão histórica moldou a atual política paraguaia em relação a Taiwan.
Villate pretende estender esse critério de exclusão para áreas como inteligência artificial e para um data center financiado pelo BID. Há também um sistema de informação de saúde desenvolvido com Taiwan, que já opera em mil unidades públicas e que, segundo o ministro, poderia representar um risco à segurança nacional caso seus dados circulem amplamente fora de Assunção.
O Custo da Aliança Tecnológica e o Futuro Político
A mudança de foco da disputa, antes comercial e agora tecnológica, altera a dinâmica da relação entre Paraguai e China. Por décadas, a China apostou em convencer o agronegócio paraguaio de que a troca de lado traria acesso a um mercado gigante de soja e carne. Embora a pressão chinesa tenha tido algum efeito político, como um projeto de oposição pela aproximação com Pequim que chegou ao Senado em 2020, o tema perdeu força com a derrota eleitoral de seu principal defensor em 2023.
Ao vincular Taiwan à segurança das redes de comunicação, o governo paraguaio, sob Santiago Peña, transformou a aliança diplomática em uma política de tecnologia. Essa estratégia, contudo, apresenta custos que Assunção prefere não discutir abertamente. Um dos desafios é um serviço de 5G sem a participação das duas maiores operadoras em um mercado pequeno, o que pode resultar em serviços mais caros. Além disso, o data center depende de eletricidade barata, que, segundo projeções do próprio governo, deixará de ser uma realidade até 2030.
Sanções como Ferramenta de Pressão e o Jogo Político
Pequim parece ter concluído que a via comercial não trará resultados significativos antes da eleição presidencial de 2028, na qual o atual presidente Peña não poderá concorrer. Por isso, a China decidiu mirar diretamente em indivíduos-chave, como o ministro Villate. A sanção aplicada, no curto prazo, concedeu a Villate um protagonismo midiático que talvez ele não tivesse alcançado por mérito próprio.
A aposta é que o próximo presidente do Paraguai herdará uma política que encarece as redes de comunicação do país e estará ciente do preço pessoal a ser pago por mantê-la. A China, ao impor sanções a Villate, demonstra sua disposição em usar todas as ferramentas disponíveis para influenciar as decisões estratégicas de outros países, especialmente em áreas consideradas sensíveis como tecnologia e segurança nacional.





