Em Santiago de Cuba, a falta de energia elétrica e combustível força a população a cozinhar com carvão e lenha, em meio a uma crise humanitária sem precedentes.
A vida em Santiago de Cuba, a segunda maior cidade do país, tornou-se uma luta diária pela sobrevivência. Em apartamentos apertados e com pouca ventilação, famílias inteiras se viram obrigadas a recorrer a métodos de cozimento rudimentares, utilizando carvão e lenha. A fumaça tóxica que emana desses fogareiros improvisados se espalha pelos edifícios, afetando a saúde de moradores que já sofrem com a escassez de alimentos e a falta de energia.
A situação, já precária devido a uma economia em frangalhos há anos, se agravou drasticamente após o governo dos Estados Unidos intensificar sua campanha de pressão contra o regime cubano. A interrupção do fornecimento de petróleo pela Venezuela e a ameaça de tarifas sobre combustíveis estrangeiros, como os do México, deixaram o país em uma situação crítica.
O regime cubano alega que suas reservas de petróleo se esgotaram e que a rede elétrica, obsoleta e envelhecida, tornou-se cada vez mais instável. Em muitas regiões fora de Havana, os apagões chegam a durar 20 horas por dia, desencadeando uma crise humanitária que se agrava a cada dia. Conforme reportado pelo The New York Times, a principal refinaria de Santiago parou de produzir gás liquefeito de petróleo, um insumo essencial para o cozimento.
A Realidade nas Alturas: Fogareiros Improvisados em Prédios Populares
Yusimi Castellano, moradora de um apartamento no 18º andar de um complexo habitacional, exemplifica a dura realidade enfrentada por muitos. Ela descreve como arruma o carvão em seu fogão baixo de ferro, utilizando isopor e plástico para iniciar o fogo. A fumaça tóxica invade seu apartamento, e ela, que sofre de asma, sente falta de ar e tosse constantemente.
“Eu não deveria estar cozinhando com carvão”, relata Castellano, 58. “Mas se eu não cozinhar, eu morro.” Seus métodos se tornaram a norma no complexo de cinco prédios, que um dia representou a promessa de um futuro melhor quando inaugurado há quatro décadas. Hoje, alguns moradores nem sequer conseguem comprar carvão e precisam cortar lenha para cozinhar.
Sanções Americanas e o Colapso Econômico Cubano
A crise energética em Cuba é diretamente ligada às ações do governo americano, que em 2019 começou a impor sanções a empresas que transportavam petróleo venezuelano para a ilha. Em resposta, o regime cubano introduziu medidas de economia de energia que acabaram se tornando permanentes. Economistas apontam que, mesmo antes dessas sanções mais recentes, Cuba já enfrentava dificuldades financeiras para adquirir o combustível necessário.
Autoridades americanas, no entanto, atribuem os problemas de Cuba à corrupção e incompetência do regime, e não às sanções. Apesar disso, enquanto a maioria da população sofre com a falta de gás, eletricidade e transporte público, a polícia e as Forças Armadas cubanas continuam a receber combustível para seus veículos.
Santiago de Cuba: Uma Cidade Duramente Atingida
Santiago de Cuba, com uma população majoritariamente afro-cubana, tem sido tradicionalmente um reduto de apoio ao regime. Contudo, a cidade é mais pobre que Havana, possui um setor privado menos desenvolvido e recebe menos remessas do exterior. Com menos recursos para mitigar os efeitos da crise, Santiago foi particularmente afetada pelo colapso econômico.
Haydee Gómez Suárez, 63, que vende sacos plásticos para pão, relata que a falta de energia afeta diretamente seu sustento. “Se não tem energia, não tem pão”, afirma. “E se não tem pão, não consigo vender um único saco.” Ela perdeu mais de 9 quilos nos últimos anos e come apenas uma refeição por dia, cozinhando com papelão e madeira encontrados no lixo.
O Legado da Revolução em Ruínas
Os edifícios onde moram Castellano e Suárez foram inaugurados em 1983, como um símbolo da promessa da Revolução Cubana. Construídos com tecnologia resistente a terremotos, foram descritos como “a face futura da cidade”. Os apartamentos foram destinados a famílias de guerrilheiros rebeldes e trabalhadores de uma nova fábrica têxtil.
A pesquisadora Aida Morales, do escritório do historiador em Santiago, reflete sobre o contraste entre o passado e o presente. “Era uma projeção de um futuro — um país avançando em direção ao desenvolvimento e à emancipação”, diz. Questionada sobre a projeção atual, ela ri: “Somos uma ilha; não se pode ir a lugar nenhum além do mar. E não há ninguém para nos ajudar.” A rede elétrica da era soviética, obsoleta e subinvestida, agrava a situação, dificultando a manutenção do sistema.





