China exporta modelo de vigilância estatal e policiamento político para Ilhas Salomão, gerando preocupações internacionais.
O que começou como uma oferta de segurança em um vilarejo pacífico nas Ilhas Salomão se tornou um teste para a ambição da China de exportar seu modelo de vigilância estatal e policiamento político. Policiais chineses apresentaram aos moradores um sistema de coleta de dados, incluindo impressões digitais e palmares, uma prática incomum e juridicamente questionável em um país sem leis de proteção de dados.
Sob a liderança de Xi Jinping, Pequim tem buscado oferecer a outros governos não apenas equipamentos e táticas policiais, mas também uma ideologia centrada no controle estatal. Essa abordagem tem atraído regimes autoritários e democracias frágeis em busca de estabilidade interna, e as Ilhas Salomão emergiram como um dos primeiros cenários para essa expansão.
O modelo em questão é a “Experiência Fengqiao”, um sistema da era Mao que incentiva vizinhos a espionar uns aos outros para identificar opositores políticos. Essa iniciativa, retomada sob Xi, visa eliminar qualquer desafio ao Partido Comunista Chinês e está sendo testada em países como as Ilhas Salomão, conforme relatado pelo The New York Times.
O Projeto-Piloto da Experiência Fengqiao nas Ilhas Salomão
A introdução da Experiência Fengqiao nas Ilhas Salomão ocorreu em resposta a um pedido da comunidade para lidar com jovens desordeiros. A solução proposta pelos policiais chineses foi implementar um sistema de vigilância comunitária que, na China, envolve monitoramento individual de residências e até mesmo a classificação de risco de segurança dos moradores. A ideia de aplicar um modelo tão invasivo de vigilância estatal alarmou políticos locais e observadores internacionais, que temem o sufocamento de liberdades civis.
China como Modelo de Policiamento Global e Suas Implicações
A China tem se posicionado como um modelo de policiamento bem-sucedido, citando suas baixas taxas de crimes violentos. No entanto, esse aparato de segurança é frequentemente utilizado para reprimir dissidências políticas. Desde o nascimento, cidadãos chineses recebem um registro domiciliar que restringe sua mobilidade, e a circulação é monitorada por uma vasta rede de câmeras com inteligência artificial. Em regiões como Xinjiang, minorias como uigures foram submetidas à coleta massiva de dados biométricos.
Governos alinhados a essa visão têm aceitado a ajuda chinesa para consolidar seu poder. Acordos de segurança com o Vietnã e o Camboja, por exemplo, focam na proteção da “segurança política” e em resistir a “revoluções coloridas”, termo usado por Pequim para descrever movimentos pró-democracia. A China também tem realizado centenas de sessões de treinamento para forças policiais de 138 países desde 2000, abordando temas como contraterrorismo e controle de distúrbios.
Ilhas Salomão: Um Campo de Teste para a Influência Chinesa
A relação entre China e Ilhas Salomão se intensificou em 2019, quando o país insular rompeu relações com Taiwan para reconhecer Pequim, abrindo portas para investimentos chineses. Essa mudança, no entanto, agravou tensões internas e gerou preocupações em aliados ocidentais. Em 2021, motins violentos em Honiara, direcionados à comunidade chinesa, levaram o governo a assinar um pacto de segurança com a China. O acordo, cujos detalhes vazaram, permite que Pequim envie forças de segurança para “restaurar a ordem social” e proteger cidadãos e projetos chineses.
A China doou equipamentos antimotim e integrou policiais chineses às forças de segurança locais, treinando agentes no uso de táticas e ferramentas controversas. Críticos, como Peter Kenilorea Jr., apontam que o desequilíbrio de poder permite que empresas chinesas explorem os recursos naturais do país com poucas consequências. A presença policial chinesa é vista como mais um exemplo de como Pequim avança seus interesses em um país sem poder de negociação.
Repercussão e Futuro da Experiência Fengqiao
A proposta de coleta de dados biométricos nas Ilhas Salomão gerou forte repercussão negativa. Políticos locais criticaram a falta de autoridade policial para tais ações, argumentando que o modelo Fengqiao ameaça a harmonia social e os costumes locais. Na Austrália, jornais alertaram que as Ilhas Salomão poderiam se tornar um “campo de testes para práticas autoritárias”. A China, por sua vez, reagiu defendendo sua oferta como uma opção e não uma imposição, enquanto a polícia das Ilhas Salomão negou que o programa envolvesse vigilância ou coerção.
Após a controvérsia, o projeto-piloto da Experiência Fengqiao em Fighter One foi suspenso, e nenhum dado biométrico foi compartilhado. A recente eleição de um primeiro-ministro cético em relação a Pequim levanta dúvidas sobre a continuidade da influência chinesa e a facilidade com que suas ideias de controle estatal podem se espalhar globalmente.




