Asma: tratamentos defasados em Unidades Básicas de Saúde comprometem a saúde pulmonar de adultos e crianças
Um estudo recente aponta um cenário preocupante para pacientes com asma atendidos na Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil. A pesquisa, realizada pelo Projeto CuidAR do Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde, revela que a maioria dos pacientes está recebendo tratamentos ultrapassados.
O uso de broncodilatadores de curta ação, popularmente conhecidos como ‘bombinhas de resgate’, como única forma de tratamento, tem levado a uma significativa redução da função pulmonar em adultos e crianças. Esse método, embora ofereça alívio momentâneo, não combate a inflamação da asma, elevando o risco de crises graves e danos permanentes.
Os dados alarmantes, divulgados pelo Projeto CuidAR, destacam a urgência de uma atualização nos protocolos de tratamento da asma no Sistema Único de Saúde (SUS) e a necessidade de conscientização da população sobre a gravidade da doença a longo prazo.
‘Bombinhas de resgate’ insuficientes e danos pulmonares evidenciados
O levantamento, que acompanhou cerca de 400 pacientes em Unidades Básicas de Saúde (UBSs), demonstrou que **60% dos adultos com asma apresentaram função pulmonar reduzida**. Esse quadro foi atribuído ao uso exclusivo de tratamentos defasados, como as ‘bombinhas de resgate’. Para as crianças, o índice de comprometimento pulmonar chegou a 33%.
Segundo o pneumologista pediátrico Paulo Pitrez, responsável técnico do estudo, a aplicação de broncodilatadores durante testes de função pulmonar não reverteu o dano em grande parte dos pacientes. Isso sugere que, em muitos casos, o **dano pulmonar pode já ser irreversível** devido à falta de um tratamento adequado ao longo dos anos.
Tratamento atual recomendado versus a prática nas UBSs
As diretrizes mundiais da Iniciativa Global para Asma (GINA) preconizam o uso combinado de broncodilatadores de longa ação (LABA) com anti-inflamatórios inalatórios para o tratamento da asma. No entanto, a pesquisa do Projeto CuidAR aponta que grande parte das UBSs ainda adota métodos ultrapassados, focados apenas no alívio sintomático.
O pneumologista Paulo Pitrez ressalta a necessidade de **mudar esse paradigma**, implementando estratégias preventivas e farmacológicas atualizadas no SUS. Ele enfatiza também a importância da conscientização da população, que não deve subestimar a gravidade da asma, especialmente em seu curso a longo prazo.
Impacto socioeconômico e propostas de melhoria no SUS
A falta de tratamento adequado para a asma, que afeta cerca de 20 milhões de brasileiros, tem um impacto significativo na qualidade de vida e na produtividade. Em média, **60% dos pacientes analisados perderam dias de estudo ou trabalho** nos últimos 12 meses devido à doença, com absenteísmo atingindo mais de 80% das crianças e adolescentes e 50% dos adultos.
Além disso, quase 70% dos participantes relataram três ou mais crises de asma recentes, com quase metade necessitando de atendimento de emergência e 10% sendo hospitalizados. Dados do Jornal Brasileiro de Pneumologia indicam um aumento na mortalidade pela doença, com uma média de seis mortes diárias no país.
O Projeto CuidAR também propõe a implementação de um dispositivo de baixo custo, o **Peak Flow**, para medir o pico de fluxo expiratório dos pacientes no SUS. Essa alternativa à espirometria tradicional, que custa cerca de R$ 200, pode facilitar o monitoramento e a detecção precoce de problemas, contribuindo para a redução das taxas de hospitalização e a melhoria do atendimento.




