Benedito Ruy Barbosa, mestre das novelas brasileiras, enfrentou a censura da ditadura militar
O universo das telenovelas brasileiras perdeu um de seus maiores gênios com o falecimento de Benedito Ruy Barbosa, autor de obras que marcaram gerações como “Pantanal”, “O Rei do Gado” e “Terra Nostra”. Sua partida, confirmada pelo Hospital do Coração (HCor) em São Paulo, deixa um legado de tramas cativantes e personagens inesquecíveis.
Benedito Ruy Barbosa nasceu em Gália, interior de São Paulo, em 1931. Sua trajetória de vida, marcada por superação desde a infância, o levou a trabalhar desde cedo para auxiliar a família após a morte precoce do pai. Passou por diversas profissões antes de encontrar seu caminho nas palavras, como revisor no jornal “Estado de S. Paulo”.
O gosto pela escrita o impulsionou a criar seu primeiro romance, “Fogo Frio”, que logo foi adaptado para o teatro e premiado, marcando o início de sua promissora carreira como roteirista. Sua estreia na televisão aconteceu em 1966, com “Somos Todos Irmãos”, na TV Tupi, abrindo portas para uma carreira brilhante em diversas emissoras.
Conforme informação divulgada pelo Memória Globo, Benedito Ruy Barbosa relembrou um episódio marcante de sua luta contra a censura durante a ditadura militar. O autor precisou confrontar os censores em relação a uma cena da novela “Meu Pedacinho de Chão”, exibida originalmente em 1971.
O embate com a censura por uma cena cívica
Em entrevista ao Memória Globo, Benedito Ruy Barbosa relatou o incidente que o deixou profundamente indignado. A censura da época vetou uma cena em que o hino nacional seria cantado em um determinado ambiente da trama. “O que aconteceu? A censura cortou a cena porque disse que o hino nacional não podia ser cantado em um ambiente daquele. Isso me deixou indignado”, explicou o autor.
O escritor não se conformou com a decisão e lutou para reverter a censura. “Briguei com a censura e consegui liberar as cenas”, comemorou ele, demonstrando sua determinação em defender a liberdade criativa e a importância de seus personagens e suas ações.
Trajetória de sucesso e legado inesquecível
Benedito Ruy Barbosa assinou com a Globo em 1976, iniciando uma sequência de sucessos na faixa das 18h. Adaptou “Cabocla” em 1979 e, em 1990, transferiu-se para a TV Manchete, onde escreveu a revolucionária novela “Pantanal”, que inovou ao utilizar locações externas e explorar a rica cultura do bioma brasileiro.
O sucesso de “Pantanal” o trouxe de volta à Globo para “Renascer” (1993), ambientada no interior baiano. Sua habilidade em abordar temas sociais e conflitos familiares ficou evidente em “O Rei do Gado” (1996), que discutia a posse de terra e a reforma agrária, e em “Terra Nostra” (1999), que narrava o drama de imigrantes italianos no Brasil.
Revisitas e novas obras marcantes
Ao longo de sua carreira, Benedito Ruy Barbosa também revisitou suas próprias obras, assinando as refilmagens de “Sinhá Moça” (2006) e “Meu Pedacinho de Chão” (2014). Na nova versão de “Meu Pedacinho de Chão”, ele conseguiu incluir ideias que haviam sido barradas pela censura na primeira exibição.
Sua última novela inédita foi “Velho Chico” (2016), ambientada no sertão nordestino, que abordou um embate de gerações e a disputa por terra e poder. O trabalho de Benedito Ruy Barbosa, com seus personagens de “bom caráter, determinação para a luta, crença em valores positivos”, como ele mesmo definia, continua a inspirar e emocionar o público brasileiro.




