Mais de 200 escritoras francesas, incluindo a ganhadora do Nobel Annie Ernaux e Virginie Despentes, denunciaram o “sexismo” nos principais prêmios literários da França.
Em um manifesto contundente, as autoras expressaram sua profunda indignação com o fato de que todos os cinco principais prêmios literários franceses deste ano foram concedidos exclusivamente a homens. A crítica aponta para um sistema que, segundo elas, falha em refletir a riqueza e a diversidade da literatura contemporânea produzida no país.
O artigo de opinião, publicado no jornal Libération, destaca a ironia de uma temporada literária que havia sido apresentada como particularmente promissora para obras escritas por mulheres, mas que culminou na consagração apenas de autores masculinos. A situação gerou um forte descontentamento entre escritoras de diferentes gerações e estilos.
A denúncia levanta questões sobre a estrutura e a perpetuação de mecanismos que, na visão das signatárias, favorecem a exclusão. A crítica se volta para o sistema de premiação, questionando sua representatividade e a forma como as decisões são tomadas, conforme informação divulgada pelo jornal Libération.
A “façanha heroica” de premiar apenas homens
As escritoras ironizaram a performance dos jurados, afirmando que eles “conseguiram a façanha heroica de premiar apenas homens”. A lista dos vencedores dos cinco principais prêmios da temporada literária francesa inclui Philippe Jaenada (Goncourt), François-Henri Désérable (Renaudot), Yannick Haenel (Femina), Philippe Vasset (Médicis) e Sébastien Lapaque (Grande Prêmio da Academia Francesa).
Embora algumas escritoras tenham sido reconhecidas em prêmios de menor repercussão, como Anne Godard (Prêmio Décembre) e Lucie Rico (Prêmio de Flore), e a espanhola Eva Baltasar (Médicis de romance estrangeiro), o foco da crítica recai sobre a ausência de mulheres nos pódios das premiações de maior prestígio.
O sistema de “cooptação patriarcal” em debate
As signatárias do manifesto argumentam que um sistema de “cooptação patriarcal” continua operando nos bastidores dos grandes prêmios literários. Elas apontam que os membros dos jurados são frequentemente nomeados por seus pares, em um ciclo que muitas vezes os mantém em suas posições por toda a vida.
Essa estrutura, segundo a denúncia, dificulta a renovação e a inclusão de novas perspectivas, perpetuando um ambiente onde o sexismo pode se manifestar sutilmente, mas de forma contundente, na exclusão de talentos femininos.
Impacto e o futuro da literatura francesa
A mobilização de mais de 200 escritoras lança luz sobre a necessidade de uma reflexão profunda sobre os critérios de avaliação e a composição dos júris. A demanda é por um sistema de premiação que realmente “reflita a riqueza e a diversidade da literatura contemporânea”, valorizando igualmente as contribuições de homens e mulheres.
A repercussão desta denúncia pode impulsionar mudanças significativas no cenário literário francês, incentivando um debate mais amplo sobre igualdade de gênero e a importância da representatividade nas artes e na cultura.




