Investimentos Bilionários em Energia Renovável Fora do Golfo Crescem em Meio a Crise Energética
A escalada da tensão geopolítica no Oriente Médio, marcada pela guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, tem levado países produtores de petróleo do Golfo a redirecionar investimentos bilionários para projetos de energia renovável no exterior. O bloqueio do Estreito de Ormuz, que força uma drástica redução na produção de petróleo, expôs a vulnerabilidade da dependência desses países e acelerou a busca por diversificação estratégica em suas matrizes energéticas e economias.
A Agência Internacional de Energia (IEA) aponta que a atual interrupção na oferta de petróleo é a maior já registrada no mercado global. Esse cenário, segundo a consultoria Qamar Energy, intensifica a preocupação com a segurança energética interna e cria um ambiente de investimento mais favorável para portfólios de energias renováveis no exterior, impulsionando planos de diversificação.
Conforme informações divulgadas pela Fortune, empresas como a Masdar, de Abu Dhabi, e o fundo soberano Mubadala Investment Company têm liderado essa movimentação com acordos e aquisições vultosas. Esses investimentos visam não apenas mitigar riscos, mas também antecipar o pico da demanda global por combustíveis fósseis e atender a ambiciosos planos de desenvolvimento industrial e tecnológico, como o de inteligência artificial, que demandam grandes volumes de energia.
Masdar e Mubadala Lideram Investimentos Estratégicos em Energia Limpa
A Masdar, principal empresa de energia renovável de Abu Dhabi, firmou em abril uma joint venture de US$ 2,2 bilhões com a francesa TotalEnergies, unindo operações de energia renovável terrestre em nove países asiáticos. A empresa já atingiu 65 GW de capacidade global em janeiro deste ano e busca alcançar sua meta de 100 GW até 2030, com planos de mobilizar entre US$ 30 e US$ 35 bilhões em capital próprio e outros financiamentos nesta década.
Em maio, o fundo soberano de Abu Dhabi, Mubadala Investment Company, realizou aquisições significativas. Adquiriu uma participação relevante na plataforma de gestão de energias renováveis Power Factors, sediada em São Francisco, cujo software é utilizado por 70% dos 50 maiores produtores globais de energia limpa. Além disso, investiu US$ 325 milhões no projeto Hornsea 3 da Orsted, no Reino Unido, que, ao lado dos projetos Hornsea 1 e 2, formará o maior parque eólico offshore do mundo, com capacidade superior a 5 GW.
Volatilidade Geopolítica Ameaça Projetos Renováveis Domésticos no Golfo
Apesar do forte impulso nos investimentos externos, a instabilidade geopolítica também representa um desafio para a expansão de projetos de energia renovável dentro da própria região do Golfo. Dados da consultoria norueguesa Rystad Energy indicam uma queda drástica nas importações de painéis solares fotovoltaicos pelos países do Golfo em março. Emirados Árabes Unidos viram suas importações caírem de 767 MW para 160 MW, enquanto a Arábia Saudita recuou de 704 MW para 80 MW, e Omã registrou zero importação.
Essa desaceleração na cadeia de suprimentos local impacta diretamente projetos importantes, como o contrato assinado por Omã em maio para um projeto de energia renovável 24/7, que combina energia eólica, solar e armazenamento em baterias, com capacidade firme de cerca de 770 MW. O país tem a meta de obter 30% de sua geração elétrica de fontes renováveis até 2030.
Custos de Frete Disparam e Atrasam Projetos de Energia Limpa
A interrupção no transporte marítimo, especialmente em rotas cruciais como a entre Xangai e o Golfo/Mar Vermelho, elevou os custos de frete a níveis recordes. Segundo a Clarksons Research, o custo para transportar um contêiner padrão de 20 pés nessa rota saltou de US$ 980 antes da guerra para US$ 4.131 na semana de 15 de maio, superando o pico de US$ 3.960 registrado durante a pandemia de Covid-19 em 2021.
A Rystad Energy estima que essa situação possa resultar em um atraso líquido de três a doze meses em toda a carteira ativa de projetos de energia renovável no Oriente Médio. Christopher Gooding, analista da Cornucopia Capital, aponta que parte do capital destinado a projetos domésticos pode ser redirecionada para ambientes de implantação mais estáveis, dependendo da duração da interrupção em Ormuz.




