O Poder das Palavras: Como Donald Trump Ditou o Ritmo do S&P 500 nos Últimos 15 Meses
O mercado financeiro, tradicionalmente influenciado por dados econômicos, decisões do Federal Reserve e eventos corporativos, tem visto seu rumo ditado por uma figura singular nos últimos 15 meses: o ex-presidente Donald Trump. Suas declarações improvisadas, coletivas de imprensa e, principalmente, suas postagens nas redes sociais, tornaram-se o principal motor por trás dos dias de maior ascensão e queda do índice S&P 500.
Uma análise da Fundstrat Research, divulgada pela Bloomberg, aponta que Trump orquestrou os cinco melhores e os cinco piores dias do S&P 500 desde que assumiu o cargo. Este nível de influência é inédito entre líderes americanos modernos, superando até mesmo Ronald Reagan em 1981. Especialistas como Hardika Singh, estrategista econômica da Fundstrat, descrevem a situação como o mercado “em uma coleira”, um controle sem precedentes sobre a sorte acionária.
A recente crise no Irã exemplifica perfeitamente esse fenômeno. O S&P 500 experimentou uma queda vertiginosa de 9% em janeiro, seguida por uma recuperação surpreendente em março, impulsionada pelas declarações de Trump. Uma queda de 1,5% ocorreu em 20 de março, após o ex-presidente afirmar que não desejava um cessar-fogo com o Irã. Em contrapartida, um salto de 2,9% em 31 de março, o melhor dia desde maio, foi registrado após Trump indicar que as negociações estavam progredindo e a guerra perto do fim. Essa dinâmica se repetiu inúmeras vezes, com comentários do ex-presidente impactando não apenas ações, mas também a volatilidade do mercado de petróleo.
O “Incendiário e Bombeiro” do Mercado Financeiro
Alexander Altmann, chefe de estratégias táticas em ações globais no Barclays, descreveu Trump como o “incendiário e bombeiro” do mercado, dada a sua capacidade de iniciar e, em seguida, apagar crises com suas declarações. Essa volatilidade lembra as oscilações do ano passado, causadas por tarifas e desfeitas por recuos igualmente abruptos nas políticas do ex-presidente. Wall Street passou a antecipar essas reviravoltas, com investidores condicionados a esperar que, após um período de incerteza induzida pelo governo, Trump emitisse uma mensagem de tranquilização.
A Influência Diária e a Era das Redes Sociais
Embora a política de Washington sempre tenha sido um fator no mercado, o segundo mandato de Trump se distingue pela forma como os balanços do mercado acompanham de perto suas postagens e aparições públicas. O veterano estrategista Ed Yardeni, da Yardeni Research, afirma nunca ter visto um mercado tão afetado por falas diárias vindas da Casa Branca. Trump, que fala praticamente todos os dias, frequentemente dita o ritmo do mercado com suas palavras.
A fixação de Trump pelos preços das ações como um placar já era conhecida. Agora, os canais oficiais da Casa Branca nas redes sociais amplificam essa influência, celebrando recordes do S&P 500 ou pedindo calma em momentos de temor. Ele chegou a instar explicitamente investidores a comprarem ações, um comportamento considerado “insano” por Singh, da Fundstrat, por ser completamente sem precedentes.
Exemplos notáveis incluem a alta de 9,5% em 9 de abril de 2025, quando Trump suspendeu tarifas, e o salto de 3,3% em 12 de maio de 2025, após uma trégua comercial com a China. Em contraste, a queda de 6% em 4 de abril de 2025, após a retaliação chinesa com tarifas, e o tombo de 4,8% em 3 de abril de 2025, com a implementação das tarifas, demonstram o poder de suas decisões políticas.
Contraponto: Volatilidade Histórica e o Papel do Investimento Passivo
Contudo, alguns profissionais de Wall Street argumentam que a relação entre as falas de Trump e o mercado é anedótica, atribuindo a frequência de sua comunicação como fator principal. Uma análise das medidas de volatilidade, como o índice VIX, contradiz a ideia de um mercado mais turbulento sob Trump em comparação com administrações passadas. O valor médio do VIX desde 1990 está alinhado com o segundo mandato de Trump e o de Joe Biden.
Alexander Altmann sugere que o que mudou foi o meio de comunicação – as redes sociais de alta frequência – e não a magnitude da reação do mercado. A ascensão do investimento passivo, com computadores programados para comprar ou vender ativos com base em manchetes, também contribui para essa reatividade. Michael Green, da Simplify Asset Management, estima que os mercados estão de quatro a cinco vezes mais reativos do que historicamente, tornando a volatilidade em torno de Trump uma questão de frequência de comunicação e timing.
“A volatilidade de manchetes envolvendo Trump tem a ver apenas com o fato de que ele fala com mais frequência”, afirma Green. “A matemática simples é que ele é apenas um sujeito nascido na era certa.” Essa percepção, embora controversa, lança luz sobre a complexa interação entre política, comunicação e os mercados financeiros na era moderna.




