A cantora Maysa, que completaria 90 anos em 6 de junho, é lembrada como uma artista visceral e pioneira, cuja força e autenticidade a destacaram em uma época dominada por homens. Sua carreira foi marcada por sucessos, polêmicas e uma vida intensa, que culminou em sua morte precoce.
A lembrança dos 90 anos de Maysa Figueira Monjardim, nascida em 6 de junho de 1936, nos convida a revisitar a trajetória de uma das mais importantes e rebeldes vozes da música brasileira. Mesmo com sua partida prematura aos 40 anos, em um trágico acidente de carro na ponte Rio-Niterói em janeiro de 1977, o legado de Maysa permanece vivo e influente.
A cantora, que também se aventurou como atriz em novelas como “O Cafona” (1971), é especialmente lembrada por sua interpretação intensa e por ser uma compositora pioneira em um universo predominantemente masculino. Sua música, carregada de emoção e verdade, ecoa até hoje, inspirando novas gerações.
A definição de samba-canção como um gênero de “violência interna, de órgãos implodidos por amores frustrados”, atribuída ao sambista Kiko Dinucci em uma postagem recente, capta a essência da obra de Maysa. Essa perspectiva, como aponta um jornalista especializado em música, ressoa profundamente com a forma como a cantora expressava suas dores e paixões em suas canções. Conforme informação divulgada por este jornalista, foi a partir dessa reflexão que ele se conectou com a efeméride do aniversário de Maysa.
Uma Artista à Frente de Seu Tempo
Maysa foi uma força da natureza, uma artista que se recusou a caber nos moldes esperados pela sociedade machista da época. Em 1956, ela se tornou a primeira cantora a lançar um álbum inteiramente autoral, um feito notável que já demonstrava sua ousadia e independência. Sua voz grave e intensa, capaz de transmitir uma profundidade emocional ímpar, a tornou inesquecível.
A cantora desafiou normas, falou palavrões e nunca se curvou às expectativas de ser uma figura dócil. Seus impagáveis olhos verdes, descritos metaforicamente como “oceanos não pacíficos” por Manuel Bandeira, pareciam refletir a intensidade de sua vida e de sua arte. Essa postura empoderada, muito antes de o termo se popularizar, a consagrou como um símbolo de resistência.
Sucessos que Atravessam Gerações
Um dos grandes sucessos de Maysa, “Meu mundo caiu”, composta por ela mesma em 1958, ganhou nova vida em 1976 ao ser incluída na trilha sonora da novela “Estúpido Cupido”, exibida pela TV Globo. A canção se tornou tema da personagem Olga, interpretada pela atriz Maria Della Costa, e alcançou enorme popularidade, marcando o retorno de Maysa às paradas de sucesso.
A melancolia e a beleza de outras composições autorais de Maysa, como “Ouça” (1957) e “Tarde triste” (1956), também são reverenciadas. Esta última, por exemplo, foi redescoberta por muitos na voz de Nana Caymmi em 2001, na trilha sonora da novela “O Clone”, demonstrando a atemporalidade de sua obra.
Legado de Interpretação e Rebeldia
A capacidade interpretativa de Maysa era singular. É difícil imaginar outra cantora emprestando a mesma legitimidade e autoridade a sambas-canções como “Franqueza”, de Denis Brean e Oswaldo Guilherme. A música integrou o álbum de 1957, onde Maysa, poliglota, também gravou a canção francesa “Un jour tu verras”.
A vida de Maysa, embora breve, foi intensa e repleta de paixões, música e desafios. Ela bebeu, cantou e viveu intensamente, deixando um legado imortal na música brasileira. A cada redescoberta de sua obra, fica a certeza de que Maysa vive, eternizada em cada nota e em cada verso que tocou o coração de seu público.





