
Guerra no Oriente Médio: Tragédia Amplia Abandono e Exploração de Trabalhadoras Migrantes Sob o Sistema Kafala
Guerra no Oriente Médio: Tragédia Amplia Abandono e Exploração de Trabalhadoras Migrantes Sob o Sistema Kafala A intensificação dos bombardeios no Líbano, em março, como desdobramento da guerra no Irã, expôs a fragilidade e o abandono de trabalhadoras domésticas migrantes. Mariatu, de Serra Leoa, vivenciou o terror de ser deslocada com seus patrões para um hotel seguro, apenas para ser deixada à própria sorte uma semana depois, sem apoio e aterrorizada. Essa situação alarmante reflete a vulnerabilidade de um grupo majoritariamente feminino, invisibilizado e desprotegido em meio a crises humanitárias. A cultura local e o sistema de trabalho excludente deixam essas mulheres à mercê da sorte, sem acesso a ajuda ou segurança. O sistema kafala, predominante no Oriente Médio, aprisiona essas trabalhadoras, impedindo-as de fugir de áreas de risco, acessar ajuda humanitária ou retornar aos seus países de origem. Conforme alerta a Federação Internacional das Trabalhadoras Domésticas (IDWF), essa prática vincula o migrante a um patrocinador local, que detém controle sobre sua vida profissional e pessoal. O abandono do emprego é frequentemente criminalizado como “fuga”, levando à irregularidade, prisão e deportação. A informação é da IDWF. O Sistema Kafala e a Retenção de Passaportes O regime kafala, amplamente utilizado para a contratação de migrantes no Oriente Médio, confere ao empregador um controle quase absoluto sobre a vida do trabalhador. A impossibilidade de deixar o país sem o consentimento do empregador, mesmo em situações de risco, agrava a vulnerabilidade. Nada Wahba, coordenadora regional da IDWF no Oriente Médio e Norte da África, explica que a prática de reter passaportes é comum, eliminando qualquer possibilidade de autonomia para as trabalhadoras. “Na prática, ela [trabalhadora] só pode sair se o empregador concordar em encerrar esse vínculo. Esse modelo permite abusos recorrentes, incluindo a retenção de passaportes. É comum que empregadores confisquem os documentos das trabalhadoras, eliminando qualquer possibilidade real de autonomia”, afirma Wahba. A Guerra Intensifica Abusos e Abandono Em contextos de guerra, a situação das trabalhadoras domésticas se agrava drasticamente. Elas são frequentemente tratadas como descartáveis, excluídas de políticas de proteção. A desvalorização histórica do trabalho de cuidado, aliada à falta de documentação, as torna alvos fáceis de abusos e exploração. Wahba ressalta que, sem documentos, muitas têm medo de buscar serviços de emergência ou abrigos, mesmo quando disponíveis. Durante conflitos, o abandono se intensifica, mesmo em áreas consideradas de maior risco. O acesso a serviços de emergência e abrigos torna-se restrito ou negado. A coordenadora da IDWF aponta que, mesmo desejando o repatriamento, muitas trabalhadoras encontram obstáculos intransponíveis para retornar aos seus países. Organizações de Apoio e o Aumento da Demanda Mariatu, após ser abandonada por seus patrões, encontrou refúgio e apoio na Domestic Workers Advocacy Network (DoWAN), organização criada por trabalhadoras estrangeiras para suprir a ausência de proteção estatal. A DoWAN, fundada por Mariam Sesay, também de Serra Leoa, que sofreu abusos ao chegar ao Líbano em 2014, tem visto um aumento expressivo na demanda por ajuda. No início da guerra no Irã, o grupo apoiava de 10 a 15








