O declínio da esquerda indiana: do poder a uma sombra de si mesma
Pela primeira vez desde 1957, a Índia não conta com nenhum governo estadual liderado por comunistas. A derrota recente da Frente Democrática de Esquerda (LDF) em Kerala, após uma década no poder, marca o fim de uma das experiências mais duradouras de comunismo democrático no mundo.
No auge, os partidos comunistas indianos comandavam estados extensos, influenciando a vida de mais de 100 milhões de pessoas. De Bengala Ocidental a Kerala e Tripura, sua presença era marcante em sindicatos, organizações camponesas e redes de militantes.
Bengala Ocidental, por exemplo, viu a Frente de Esquerda governar ininterruptamente de 1977 a 2011, uma das administrações comunistas eleitas mais longas globalmente. Tripura também teve um longo período de domínio de esquerda. Conforme informações divulgadas pela BBC, esse declínio reflete uma mudança na paisagem política indiana.
Mudança de Paradigmas Políticos
A ascensão do nacionalismo hindu, a forte organização política baseada em casta e religião, e a emergência de políticas de identidade e populismo têm gradualmente corroído a base eleitoral comunista. A antiga linguagem da luta de classes e da mobilização coletiva perde espaço para novas narrativas que atraem eleitores.
Mohammed Salim, secretário do CPI (M) em Bengala Ocidental, aponta para uma “ofensiva religiosa, política e econômica” desde os anos 1990, impulsionada pela liberalização de mercado e pelo nacionalismo hindu. Essa nova dinâmica criou “aspirações” na classe média, dificultando a adaptação da esquerda.
A dificuldade em lidar com a política de identidade, em detrimento da política de classe, é um fator crucial. “A política da divisão enfraqueceu a unidade de classe”, afirma Salim, destacando como a esquerda luta para manter sua relevância em um cenário cada vez mais fragmentado.
Desafios Econômicos e Ideológicos
Especialistas argumentam que o declínio comunista não pode ser atribuído apenas à ascensão do nacionalismo hindu ou à política de castas. Sanjay Ruparelia, professor de política na Universidade Metropolitana de Toronto, explica que os partidos comunistas indianos governavam estados dentro de uma “economia política federal”, sujeitos à pressão por atrair investimentos privados e gerar crescimento.
Essa contradição se manifestou de forma dramática em Bengala Ocidental, onde o partido, que surgiu com reformas agrárias, passou a ser acusado de desapropriar terras para fins industriais. O modelo de Kerala, conhecido por seus altos indicadores sociais, também enfrentou tensões.
Kerala dependia fortemente de remessas do exterior, que oscilaram, gerando pressões fiscais e pouca geração de empregos. O mais surpreendente, segundo Ruparelia, é que os próprios comunistas de Kerala passaram a endossar o investimento privado e parcerias público-privadas, um movimento que levou alguns a considerá-los mais “social-democratas” do que comunistas.
O Futuro da Esquerda Indiana
A base social que sustentava o modelo comunista tem se erodido. O trabalho organizado, historicamente uma força motriz, é agora minoria na vasta economia informal da Índia. A política de bem-estar migrou de mobilizações de classe para transferências diretas de dinheiro e coalizões baseadas em identidade.
Ainda que os partidos comunistas indianos tenham sobrevivido a divisões e repressão, sua influência eleitoral diminuiu drasticamente. O CPI (M), por exemplo, viu sua participação no voto popular cair de mais de 6% nos anos 1980 para menos de 2% nas últimas eleições gerais. “A esquerda perdeu seu lugar como a principal voz dos direitos e das garantias”, lamenta a analista Shikha Mukherjee.
Apesar do declínio, líderes partidários insistem que a relevância social e política da esquerda persiste. “Os assentos são importantes, mas nosso lugar no coração das pessoas é mais importante”, afirma MA Baby, secretário-geral da CPI (M). A questão agora é se a esquerda indiana conseguirá se reinventar e se adaptar às novas realidades políticas e econômicas do país.





